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Shenzhen: o que você PRECISA saber sobre o Silicon Valley asiático!



Artigo publicado por Matheus Goyas, cofundador da Pádua Investimentos, originalmente no Medium (aqui).

Ao longo das últimas duas semanas, eu e meus amigos/sócios começamos uma longa viagem. As principais motivações e destinos estão no meu último post, confiram lá: https://bit.ly/2Z4pQWr .


Desembarcamos em Shenzhen no sábado e ficamos aqui em estado de choque com tamanha surpresa em relação ao desenvolvimento da cidade, do mindset aqui encontrado e da macro-coerência estratégica que percebemos. Compartilhamos abaixo um pouco do que aprendemos nessa primeira parada na China.


Shenzhen é uma cidade localizada na província de Guangdong no sudeste da China e muito próxima de Hong Kong (uma das duas regiões administrativas especiais da República Popular da China).


A cidade é enorme, moderna e pulsante. Possui aproximadamente 13 milhões de habitantes e apresenta um dinamismo incrível. Porém o que mais espanta é a rapidez na transformação da região. Em 1973 a cidade era um pequeno centro comercial, cercado por campos de arrozais, com não mais do que 30.000 habitantes.





As fotos acima representam um pouco do progresso e desenvolvimento vividos pela cidade nos últimos 40 anos.


Segue abaixo um pouco do que aconteceu por aqui contextualizando com as visitas que fizemos.


Nas décadas de 70 e 80, o líder do partido comunista Deng Xiaoping visitou a vila de Shenzhen e, percebendo que o comunismo não tornaria a vida das pessoas melhor, resolveu começar na cidade um experimento de abertura econômica (voltaremos nesse termo mais adiante). Tal experimento foi extremamente bem sucedido e acabou sendo um dos grandes fatores que impulsionaram a abertura econômica e o desenvolvimento chinês nas últimas décadas.


Antes de avançar na história de Shenzhen, vale passarmos por algumas características da China que apesar de ser um país enorme e com a maior população do planeta, se organiza de uma forma extremamente inteligente e peculiar.


Falaremos aqui de três pontos importantes [existem diversos outros fatores, mas vou focar em apenas esses por enquanto]: (i) Organização política, (ii)governança e (iii) experimentalismo como viabilização de políticas públicas.


(i) Sem entrar no juízo de valor sobre as práticas democráticas e políticas do país, a China se organiza internamente de uma forma extremamente inteligente. As eleições regionais são indiretas e representativas, o que acaba gerando uma grande coesão política entre os municípios, províncias e o país. Uma vez eleitos, os representantes tem bastante autonomia para poderem implementar suas políticas públicas com agilidade, respeitando sempre as diretrizes centrais do governo;


(ii) Sobre a perspectiva de governança, o país se organiza e delimita metas que são nacionais (são metas aspiracionais abstratas ) que tantos os governos provinciais e municipais almejam, mas também os empresários (pois sabem que terão vantagens competitivas para alcançar êxito). Apesar de setar as metas, o governo nacional dá autonomia para que os regionais atuem nas pontes de forma a garantir que as metas (normalmente reavaliadas de 05 em 05 anos) sejam alcançadas e prosperem o país.

Outro ponto importante aqui (ii) é que os governantes regionais sempre tem inspirações de progressão e trabalham muito para conseguir crescer na carreira pelo mérito do que eles fazem na região e, somente assim,conseguem progredir politicamente no país.

(iii) Combinado com o dinamismo das autonomias regionais, o experimentalismo é umas característica que permite à China fazer testes regionais de políticas públicas, permitindo a implementação de forma rápida, barata, controlada e sempre medindo se realmente funciona. Nos casos bem sucedidos, as soluções são escaladas para outras regiões e nos casos mal sucedidos, como os experimentos são realizados em escala regional e não nacional, os impactos são pequenos e o experimento é descontinuado.

Explicadas essas três características da China, fica mais fácil entender a história de Shenzhen e compreender como um pequeno centro comercial de 30.000 habitantes se tornou o novo “Vale do Silício” asiático.


Para vocês terem idéia da dimensão do crescimento de Shenzhen, no início da década de 80 o PIB da cidade era 0,1% do PIB de Hong Kong. Já em 2018, Shenzhen ultrapassou Hong Kong.


A abertura econômica da cidade permitiu que diversos investimentos e relações comerciais começassem a se desenvolver globalmente. Porém, um momento marcante para a história da cidade foi o surgimento do DVD player. Vocês devem estar se perguntando: como assim?



No final da década de 90 e início dos anos 2000, já com um bom crescimento em relação aos anos 80, os aparelhos DVD eram febre por todo o mundo, e não seria diferente na China. Entretanto, os DVDs mais consumidos pelos chineses, assim como no Brasil, eram de filmes piratas de grandes produções Hollywoodianas que acabavam não funcionando nos aparelhos de DVD americanos, no momento os únicos que exisitam na China. Foi então que um grupo de industriais em Shenzhen resolveu produzir aparelhos de DVD de baixo custo mas com uma qualidade de leitor superior para a leitura dos DVDs piratas.…… e conseguiram! Tal feito, além de fazer a alegria da população ao viabilizar os filmes piratas [sem entrar nesse mérito], colocou Shenzhen na rota da produção industrial de alta qualidade em escala.


Essas companhias foram acumulando tanto capital ao longo dos anos, que viabilizaram a elas se reinventarem e se desenvolverem entrando em produções de eletrônicos cada vez mais complexos e de valor agregado, como por exemplo os smartphones.


Um dos reflexos desse feito hoje em dia é a produção global de smartphones. Veja no gráfico abaixo como o market share global e regional da produção dos aparelhos está distribuída.



Pode parecer que o interessante dessa imagem é que +50% do market share são de produtores chineses, mas o mais impactante é que +90% de todos os smartphones (chineses e não chineses) são produzidos em Shenzhen, inclusive o seu iPhone ou Samsung.


Esse nível de produção em escala de smartphones, em especial a produção dos aparelhos da Apple, fez com que Shenzhen surgisse para o mundo em 2010 com o estigma da cidade que produz smartphones (IPhone). Entretanto, uma das principais empresas do mundo em tecnologia e tecnologia de telecomunicações (incluíndo dispositivos smartphones proprietários) é de Shenzhen e se chama Huawei.


A Huawei é a maior empresa de tecnologia para telecomunicação do mundo [grande parte da infra de telecom do Brasil é fabricada pela Huawei] e atualmente se tornou o foco da disputa comercial entre Estados Unidos e China. Entre os principais motivos para esse conflito está o fato de recentemente a companhia ter anunciado o 5G, tecnologia que vai revolucionar o setor de Telecom em todo o mundo. Com o 5G vamos presenciar um aumento da eficiência da indústria, melhoria da experiência dos usuários e uma diminuição drástica da latência, permitindo que várias aplicações, antes impossíveis de usar em banda e 4G, sejam utilizadas.


Apesar da Huawei ser uma empresa enorme (500 Fortune) com 190 mil funcionários, sendo mais de 80.000 em R&D, a população entende que de fato ela não é tão relevante para Shenzhen. A cidade produz mais de 90% dos aparelhos eletrônicos do mundo, o que torna mesmo uma empresa enorme como a Huawei, pequena perto do ecossistema da cidade.


Finalizando, essa mesma empresa que começou a produzir os DVDs no final da década de 90 é a atual dona da Oppo (4 maior produtora de smartphones do mundo) e da Nex (5 maior produtora de smartphones do mundo).


Aqui fica uma lição para companhias grandes que querem inovar:


Os chineses de Shenzhen não perdem tempo brigando internamente para fazer as coisas dentro da empresa que trabalham. Se existe um time de funcionários que quer construir coisas novas, a companhia dá o dinheiro para os funcionários e deixam eles produzirem uma spin-off. Segundo eles: “assim focamos nas coisas que interessam: (i) produzir e (ii) crescer e (iii) depois ver se deu certo. Não perdemos tempo com conversa fiada e brigando internamente para ver quem tem razão”.


Outro ponto que nos chamou a atenção foi o fato de 100% dos taxis da cidade serem iguais. Primeiro achamos que era algo especial do aeroporto mas depois percebemos que todos os taxis de Shenzhen são iguais e elétricos, sendo produzidos pela BYD (companhia que também tivemos a oportunidade de visitar)



Ao darmos uma volta na cidade, além de ficarmos entusiasmados com a pulsante modernidade, começamos a reparar que todos os ônibus, carros de polícia, bombeiros e demais eram carros também elétricos. Ficamos intrigados. Fomos entender melhor todo o contexto no dia seguinte, conforme abaixo:


Após todo esse perplexo com os carros elétricos, tivemos a oportunidade de ir na BYD (Build Your Dreams) — confesso que fiquei aliviado em ver que não sou o único que inventa nomes ruins para os negócios (p.ex: AppProva, com 03 P, rs!)



A BYD é um exemplo claro de empresa que nasceu e prosperou por conta da (a) macro estratégia, (b) da governança, (c) da autonomia e (d) do experimentalismo do governo chinês.


Por volta do final da década de 90, o governo constatou os seguintes pontos: (i) A China não vai conseguir ser referência internacional em carro a combustão (Europa, Japão e USA já estavam bem posicionados para vencer isso), (ii) O país precisa reposicionar a sua matriz energética de forma a depender cada vez menos de combustíveis fósseis - e mais adiante no início dos anos 2000 - (iii) Precisamos combater a poluição, principalmente nas grandes cidades e (iv) Dado que não conseguimos ganhar a disputa dos carros a combustão, vamos ganhar a dos carros elétricos.


Assim sendo, em 1995 o governo enviou para Shenzhen um professor, químico, para experimentar um negócios de bateria a fim de EXPERIMENTAR uma alternativa para combater a constatação (ii) [Matriz energética]. Nesse experimento bem sucedido é que surge a BYD.


Ao longo dos anos 2000, começaram as diretrizes e metas do governo central para avançar sobre as constatações (ii), (iii) e (iv) e Shenzhen novamente não ficou para trás e com sua autonomia regional traçou planos ambiciosos para garantir que a cidade fosse verde, referência em todo o país/mundo em sustentabilidade e sediasse a maior companhia do mundo de veículos elétricos. Mais uma vez a cidade não decepcionou e os resultados foram assustadores.


Atualmente Shenzhen possui quase 100% da frota de veículos públicos (taxi, ônibus, bombeiros, polícia) elétricos — afinal conselho é bom, mas o exemplo arrasta. Além disso, o governo regional subsidia a compra desses veículos elétricos pela população, e impõe relevantes tarifas aos veículos a combustão, que acabam inviabilizando o carro movido a combustível para consumidores comuns.


Todos esses fatores mostram como empresários e governantes regionais, alinhados com as macro estratégias do governo central, conseguem construir empresas enormes e cidades fantásticas. Provavelmente a BYD só existe porque Shenzhen viabilizou, e Shenzhen só é a cidade verde e encantadora porque a BYD revolucionou a forma como a cidade se transporta. Como dizem nossos amigos do Méliuz [Lucas Marques Peloso, Israel Salmen], é ganha, ganha, ganha.


Vale ressaltar a coerência estratégica da empresa ao focar em vendas aos governos (diversos países, inclusive Brasil) para conseguir simplificar a distribuição e ganhar escala [um dos pontos que a Tesla mais sofre].



Para vocês terem ideia, segue alguns dos números da BYD:

Maior fornecedor do mundo de carros elétricos (maior que a Tesla);Expectativa de terem 30% do market share global;Ecossistema de emissão zero: Paineis elétricos, bateria, carro, trem;Carros que viram baterias e edifícios que viram carregadores, tudo integrado;$19Bilhões (USD) em receita e R$220.000 funcionários;



O último grande movimento da companhia foi investir mais de 1 bilhão de dólares na tecnologia do Skyrail, que nada mais é que um trem elétrico elevado para transporte público (parece que Salvador foi a primeira cidade brasileira a adquirir o produto deles). O Skyrail, além de outra vantagens, permite uma construção muito mais rápida e barata dado que não exige desapropriações e obras subterrâneas para sua construção. Além claro de ser sustentável do ponto de vista energético.



Por fim, fizemos outras visitas, tais como: Hax (aceleradora de StartUps focadas em Hardware, OpenSpace de inovação da cidade e conversamos com diversas lideranças. Entre elas, vale ressaltar a conversa com Sr. Walter Fang, um executivo aposentado que teve diversas passagens na China trabalhando para ISoftStone, IBM, etc… e hoje mora em Pequim.


Existem várias Chinas dentro do país, e é isso que o torna tão magnifico. Vários experimentos sendo implementados e testados por todos os lados e os que dão certo ganham escala numa velocidade tremenda;Um país não consegue se desenvolver se não focar inicialmente em infraestrutura: ferrovias, portos, aeroportos, estradas, telecomunicações. Isso é fundamental para conectar as pessoas intercity e intracity e sem isso os negócios são muito mais custosos (em tempo e dinheiro);Tecnologia hoje representa 30% do GDP da China, previsão é chegar em 50% nos próximos anos, continuar inovando e experimentando é o driver;


Conhecer Shenzhen foi espetacular. Muito impactante ver como uma cidade se transforma de forma exemplar em termos de crescimento, sustentabilidade e constrói um mindset populacional de pensar em conquistar o mundo em todos os aspectos, desde a produção de um celular, até na referência de preservação do meio ambiente.


Deixo aqui meus agradecimentos ao ITS Rio por organizar essa viagem de forma exemplar. Muito obrigado também aos meus companheiros de viagem e apoiadores desse texto Marcos, Rafa e Topi e aos amigos Ronaldo Lemos, Edu, Eric e Otávio pelos aprendizados, contextos e traduções (rs!), próxima parada: Pequim!

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